
No relógio da sala
Pulsa um coração demente
Em cavalgada mecânica
Na rotação permanente
Das muitas rodas dentadas
Que lhe giram nas entranhas
Na vibração imponente
Do ar frio e excitado
Pelo diapasão pendular
No tiquetaque insistente
Do compasso cronométrico
Na contagem decrescente
Vai des(a)fiando o Tempo.

Birthplace – India (Foto de Tatsuya Sato )
Fato domingueiro,
Entre míseros casebres
De pedra solta, algures,
Num mundo de desolação:
A camponesa pobre,
Descalça no cascalho
Da montanha enevoada,
Posa, olhos no chão.
O cabelo está atado.
Há colares ao pescoço.
Empunhada como espada
Tem uma vara na mão.
Um cesto de verga, uma bilha,
Uma ave de capoeira,
Dão conta da vida dura
Dos que amargam o pão.
Mas o que se destaca
Neste cenário insólito
Não é a miséria real
Ou o artifício da encenação.
Não é a imponência
Da montanha embaciada,
Nem é a crueza das pedras
Reforçando a solidão.
Não é o cesto caído,
Nem o alheamento do frango.
Não é a bilha, nem a ruína
Que ameaça a construção.
Não são os seios fartos
Que enchem a blusa,
Nem é a vara empunhada
Com determinação.
É o porte nobre da Mulher
Que é vida, que é futuro,
E diz: - Olhai! Olhai bem.
De mim depende a Criação!

Sob o sol escaldante
Os campos resplandecem
Com as cores de Van Gogh
O horizonte é vermelho
Laranja negro e liso
O céu é de um azul escorrido
Trazendo pela trela
A sua própria sombra
O viajante atravessa a paisagem
Traz às costas uma mochila
Cheia de memórias pesadas
Como calhaus do rio
Os pés arrastam-se pela tinta
Rasgando o chão verde
Como um arado rombo
Um chapéu esconde-lhe a cara
Chapéu e cara desfeitos em bruma
Pelos traços do pincel
Passageiro imóvel
Tem na mão a alma dura
De um pintor chamado Bacon

Chega com o Outono
Como as aves de arribação.
A gaita
Do amolador
Qual rumor
Do tempo
De infância
Anuncia
O tempo frio
E ao fim do dia
A chuva
Miudinha
Já se avizinha.
- Dó-ré-mi-fá-sol-lá-si…
Si-lá-sol-fá-mi-ré-dó… -
Repete
A melopeia
A toada
Cheia
Da flauta
De Pã.
- Amola facas e tesouras!
Conserta chapéus e alguidares! -
Proclama
Longamente
O pregão
Insistente
Do artesão.
Facas velhas
Não tenho
Para as mandar afiar
Nem alguidares
Fendidos
Nem guarda-chuvas
Partidos
Nem tesouras
Para amolar.
(Sinal
De um tempo
Consumista
Descartável
Egoísta
Perdulário).
Mas fico
A vê-lo passar
No seu sazonal
Fadário
Despertando
Assim
Dentro de mim
A saudade
De uma idade
Que passou já.
Chega com o Outono,
Como as aves de arribação.
E como elas
Se afasta
E parte
E se desvanece…
Desaparece
Num beco
Num eco
Na esquina
Da rua…