O sol nasce,
O sol põe-se
E volta a nascer
E a pôr-se,
No seu ritmo
Ininterrupto,
Mesmo quando
Me esqueço
De virar as páginas
Do calendário.

Fotografia de Pedro Guimarães
Na nudez dos ombros
Na palpitação do sangue
No latejar dos peitos
Na maciez da carne
Na fundura dos olhos
No arrepio da pele
Na emoção da voz
Na inocência dos sexos
No afagar das mãos
Na empatia dos corpos
Na fusão das bocas
No calor dos beijos
O ser que se completa
Irrompe o anjo
Mesmo que as asas
Sejam falsas
«o silêncio ocupo-o com os poetas amigos da luz
que me dão pão macio de palavras»
Constantino Alves
Na boca dos poetas
Que cantam o silêncio
Revejo as linhas
Ondulantes
Do teu corpo
No baque
Das palavras mudas
Afago o brilho
Dos teus olhos de mel
Bebo-te em cada estrofe
Dos poemas que não escrevi
Mas que abracei
Longamente
Nas horas da espera
Do sol poente
Ao nascer do dia
És o pão da minha alma
A mão que me incita
A luz do meu ocaso
O sopro nocturno
Da solidão
De que me alimento
(Em resposta às questões de um novo Amigo)
Acossados
Pelo Mistério da existência
Iniciamos uma busca
Desesperada.
À procura de nós mesmos.
No eco das pequenas coisas
No murmúrio do vento
No brilho efémero das flores
Na imagem no espelho
Nas lágrimas perdidas
Nos beijos sem resposta
No reflexo dos outros
No choro das árvores
E como elas, perguntamos:
- Frutificamos?
Não frutificamos?
Muito?
Pouco?
Nada?
Somos todos Viajantes do Tempo
Viajantes no tempo
Caminhando numa espiral sem princípio nem fim
Avançamos em movimentos cíclicos
Como as ondas provocadas pela pedra no charco
Como o eco nos degraus de uma imensa escada em caracol
A caminho das nuvens
Ou a caminho da erva
Nutridos da poeira dos astros
Esfregamos os olhos
Assombrados no ritmo das estações
Perseguindo o fogo de Prometeu
Temos como única herança
A verdade dos dentes e das garras no ensejo do combate
Uma montanha verde cheia de sombras
E olhos para chorar nas noites sem lua
Agitamos o coração incandescente
Para iluminar o desconhecido
Mas vamos de olhos fechados nos olhos abertos
Perdidos num sonho inútil de grandeza e glória
A meio da viagem já perdemos o rumo
E vemos com mágoa que nos desencontrámos
Daqueles que amamos verdadeiramente
Classificamos os incidentes do percurso em dores e alegrias
E armazenamos os fragmentos da Eternidade
Nas gavetas da memória
Fazendo dos tropeções na calçada a única bagagem viável
Cruzamo-nos com os viajantes de outras eras (passadas e futuras)
Nas encruzilhadas do mapa vazio
E nas palavras dos poemas anónimos
Transportadas no murmúrio do vento
Observamos expectantes e receosos
O princípio da longa e incerta marcha
Dos frutos do nosso sangue renascido
Herdarão de nós um baú empoeirado
Cheio de regras inúteis e conselhos vãos
Esquecido no armazém de alguma gare vazia
Porque o caminho é feito por cada um dos caminhantes
Assistimos impotentes e desesperados
Ao termo da demanda de quem nos deu a luz
Revisitamo-los no pergaminho das rugas
Nas fotos amarelecidas dos álbuns esquecidos
Na curvatura dos livros de páginas gastas
Ancorados na raiz do arco-íris
Encostamos a cabeça na terna e fecunda Mãe Terra
Massajamos os pés cansados com a luz das estrelas
E dormimos finalmente
Transformados na poeira das horas
Apenas temos a certeza de que a jornada continua
Pelo tempo do tempo do Tempo
um papel dançando ao vento
para cima e para baixo
para trás e para a frente
para a esquerda e para a direita
um poema sem palavras
feito apenas do movimento
aleatório da folha branca
e os olhos
do poeta
imóvel
que contempla
um papel dançando ao vento
para cima e para baixo
para trás e para a frente
para a esquerda e para a direita
Homenagem a José António Gonçalves e José Félix
na espera do encontro
no eco da distância
na mudez do filme
no salto da personagem
na vedação do jardim
no banco da impaciência
na raiz dos sustenidos
no bolso das fisgas
na sombra dos bemóis
no dédalo das árvores
na brincadeira dos meninos
no favor das circunstâncias
na paixão dos cativos
no espelho das notas naturais
o piano do silêncio
o silêncio do piano
o piano
o silêncio