os poemas são como as pérolas;
demoram o tempo necessário
para poderem sair da concha das ostras.
José Félix
o poema começa apenas
como um pequeno grão de areia
empurrado pela deriva das marés
não mais que um fragmento
uma ideia
uma quimera
uma impressão fugidia
procurando refúgio
no recôndito da concha
a pouco e pouco
vai tomando forma
no burilar das palavras
adquirindo brilho
na penumbra das frases
ganhando corpo
na aspereza dos dias
quando se torna grande demais
para a intimidade rósea da ostra
é lançado de novo na corrente
e o poema parte em direcção à luz
maduro e livre
brilhante como uma pérola
um
onde
um longe
uma pérola
uma pedra de sal
um lamento do vento
um simulacro de carícia
na frágil concha da loucura, na deriva das estrelas
na seiva das ostras, sem bússola nem leme
nem destino à vista: o navio da escrita.
as palavras são o barro do poema
moldado a frio nas horas de insónia
as palavras são o barro do poema
enlameando as mãos nuas e inquietas
as palavras são o barro do poema
sombras difusas na luz baça do ocaso
as palavras são o barro do poema
seres bravios uivando na noite agreste
as palavras são o barro do poema
corpos domados vergando-se aos afagos
as palavras são o barro do poema
quais criaturas fecundando a madrugada
as palavras são o barro do poema
sementes férteis eclodindo ao sol nascente