eu digo:
o poema é uma espécie de sussurro
mordendo a carne do verbo.
tu dizes:
as aves da tarde rasgam a mordaça,
soltando as palavras adormecidas.
eu digo:
nas carícias da árvore, o vento rende-se
à melodia que enche as ruas de cinzas.
tu dizes:
sob a página líquida da névoa,
a quimera do sol refugia-se no sono das pedras.
eu digo:
a escova dos dedos
penteia os nervos da erva.
tu dizes:
com o palpitar dos sexos,
dissimula-se a indolência das papoilas.
eu digo:
o céu abre-se, pródigo de chuva mansa
e açoita ternamente o corpo dos amantes.
tu dizes:
na água que me escorre dos cabelos
ocultam-se as lágrimas que não chorei.
eu digo:
não beijes as sombras
que se escoam com o entardecer.
tu dizes:
não supliques, não confesses,
não perdoes.
eu digo:
deixa-me mergulhar os olhos
na areia quente das tuas pernas.
tu dizes:
a tua saliva é como o gelo
endurecido na alvura das pétalas.
eu digo:
da chaga das minhas mãos
verte-se o desejo cálido das manhãs.
tu dizes:
os teus beijos falam de ilhas
perdidas no oceano das palavras.
eu digo:
o teu corpo
é o meu poema ardente.
tu dizes:
a minha carne
é a tua carne.
eu digo:
partamos, embalados pelos odores
na espuma da maré baixa
tu dizes:
partamos, até que a alvorada
nos pese nas pálpebras.
o tempo é um bicho voraz
que nos rói todos os dias
um bocadinho da alma
mão que dá e mão que tira
poeira que nos sufoca
e nos acirra a sede de infinito
água que nos embota os olhos
vento que nos mirra a carne
e nos assombra os ossos
e contra o qual empunhamos
como única e exclusiva arma
o archote lúcido da memória
Escrevo o teu nome na areia molhada da praia,
Desenho a traço fino o perfil do teu rosto,
Moldo as formas do teu corpo brando.
Guardo, por um momento,
Nas minhas mãos,
A macieza da tua alma cristalina.
E logo tudo se desvanece
Na arremetida voraz
De uma vaga mais ousada.
Mas...
A essência deste momento único
Permanecerá para sempre
Vogando na espuma das ondas,
Iluminada pela luz do ocaso.
A partir de agora,
Passarei a escrever apenas
Na superfície húmida das folhas orvalhadas,
No bafo condensado dos vidros embaciados,
Na estrutura efémera da poeira dos móveis,
Na areia molhada da praia.
Assim terei a certeza da absoluta perenidade
De cada um desses momentos únicos:
No perfume matizado das flores,
No murmúrio breve da chuva,
No silêncio firme das pedras,
Na espuma das ondas,
Na luz do ocaso.
Assim te amo e celebro, Poesia.
Do fundo do meu «baú das memórias», surge esta «relíquia» que conta quase 15 anos e obteve o 1º prémio de poesia num concurso de literatura promovido pelo Núcleo de Juventude do Orfeão de Leiria, em Maio de 1989. É nele bem evidente a influência de Herberto Helder, cuja «Poesia Toda» era o meu livro de cabeceira (e que, entretanto, ganhou sumiço).
I - Terra
A terra tem um necessário
sentido de poema.
À noite, as unhas afagam
a forma do vento
e um pó azul
tomba do peito.
Enterram-se os dedos
na poeira
e sente-se o frémito
das árvores
como corcéis enraizados
na miragem do tempo.
É a vida dos poemas
germinando
no seio da terra.
II - Corpo
Na voz inconfundida do corpo
há um ardor inexplicado
como uma manhã de chuva.
Tremores que gotejam
nervo a nervo.
Íntimas fábulas do desejo.
Em passeatas inconscientes
pela torrente do sangue,
o fluxo-refluxo dos gestos
rende-se à solidão inquieta do tempo.
E o corpo arrefece, quieto,
na explicação dos dias.
III - Máscaras
As máscaras abrigam o desejo
por detrás do gesso,
perdido em palpitações
no interior da carne.
O corpo dormente,
embriagado pela espera,
descerra as imagens nuas do silêncio,
rasgadas
como um mar aberto,
espigados os dedos em carícias de lume.
Com o ocaso da memória
assiste-se lentamente ao exílio das máscaras.
Carlos Alberto Silva
Maio 1989