Dedicado aos amigos-poetas brasileiros
O corpo embotado pelo tempo
Traz ainda a memória da dança.
Os braços sonham com braços
A boca com o sabor das canções.
Os pés sentem a falta das tábuas
As pernas ondeiam num frenesim.
Desempoeira-se a fantasia do armário
Enverga-se a máscara sobre a máscara.
Há um formigueiro a subir pelos dedos
Pelos braços e pela espinha acima.
O ventre agita-se por dentro
Adivinhando o palpitar da música.
Abrem-se as portas de par em par
E há um grito que enche as ruas:
É Carnaval!
Carlos Alberto Silva
22fev04
Para Joaquim Evónio, André Ricardo Aguiar e José Félix
O vento chicoteia
a pele e varre
a esplanada do castelo
enche de lágrimas
os olhos perdidos
na lonjura do rio.
O sol brilha nas casas
que cresceram
sobre as casas
que cresceram
sobre as casas
e enchem o subsolo
de memórias antigas.
Agita-se o formigueiro
que enche as ruas
num corrupio febril
alheio às casas
às memórias do subsolo
ao castelo
e ao rio.
Carlos Alberto Silva
20fev04